Há uma escritora que eu leio há bons cinco anos, se não me falha a memória. Tenho os três livros da moça, passei a comprar mensalmente a revista onde ela escreve, fuçar buracos na internet que carregam seus escritos, tentar mapear suas referências e continuar seguindo seu rastro quase que diarimente através do blogue.
Ela me inspira e eu acredito nela. Assim eu seguia colocando a lady num altar. Mesmo sabendo que tantos outros(as) têm uma produção melhor construída que a dela, eu sempre depositei minha fé naquelas letras. Nas letras extremamente pessoais de Claraverbuck. A pessoalidade sempre foi algo capaz de me tomar atenção, os primeiros livros que li da prateleira de casa foram biografias, gosto das histórias narradas, gosto das experiências particulares. A vida dela transcendeu pra arte, virou livro e filme. Mas ela não deixou de ser ela, continuou de carne e osso perambulando pelo baixo meretrício de San Pablo. Eu que insisti em imacular a figura.
Eu andei durante um mês por aquelas ruas sem deixar por um dia sequer de pensar se esbarraria com a moça. É sim uma fixação, ela faz parte da minha vida por me inspirar, já disse isso. E eu queria saber onde diabos aquela mulher disparava seu ser pela metrópole. Rodei os bares, desci e subi a Augusta incontáveis vezes, hablei con su hermanito Xico Sá, sentei na beirada da banheira da Funhouse, passei os dedos pela Juke Box de lá, andava pelo metrô lendo seu último título recém adquirido e tudo lá era Ela, mas Ela não estava lá. Aqueles foram os dias, como ela diria em relação a sua estada em L.A buscando no pó o seu doce Bandini.
Então o tempo passou, San Pablo ficou longe outra vez. A escritora continua no seu devido altar, até que a vida aqui começa a caminhar a passos largos depois de tanto tempo estagnada. Tenho escrito escondido de vocês, vivido só pra mim dessa vez, vendo as coisas acontecerem ao menor movimento. Não é preciso levantar uma tonelada, há um momento que as coisas simplesmente degringolam. Rolam pela vida sem arestas. Chegou o dia de ENTREVISTAR a minha escritora. Escrevi seis perguntas, e pra ser bem sincera, minha fé era tamanha que nem me passou pela cabeça que ela fosse recusar dar alguma resposta. Pois recusou. E me deixou matutando, fumando aquele cigarro amargo da frustração. Relutante, eu ainda continuava precisando de repostas:
c. diz:
Clarah, algum problema com as perguntas sobre blog e processo de edição?
c. diz:
ah
c. diz:
preguiça.
c. diz:
ah blz. fiquei preocupada pensando que pudee ser abuso quanto ao tema
c. diz:
eu nao aguento mais essas perguntas
c. diz:
sério
c. diz:
todo mundo...
c. diz:
ai eu nao respondo mais
c. diz:
hum. desculpa clarah, é q queríamos saber como se dá mais o processo de editoração e se blog abre mesmo espaço pra isso. numa boa.
c. diz:
to ligada.
c. diz:
mas enfim.
Somos dois c's, o meu de Carla o dela de Clarah. Pessoas diferentes, [eu] com algumas coisas (identificação) iguais [as dela].
Eu sempre estive avisada que esse altar era falso. Deus não existe. E cultuar imagens imaculadas é no mínimo perigoso. O artista é só uma pessoa que acorda com o saco na lua, e melhor que as outras dilacera sensações ao invés de simplesmente espremer a laranja e partir para o trabalho sem qualquer questionamento. Eu fiquei triste porque imaginava que ela não se importaria em falar sobre isso para fãs e não mais um jornalista carniceiro querendo arrancar a pele da autora por conta de blogue e publicação.
Eu sei que ela não escreveu livro do blogue. Meu deus, eu sei. Mas eu precisava saber se blogue e milhares de acessos ajudaram a publicar os malditos livros. Porque o underground finalmente pôde ser difundido pela rede e assim palavras atiradas como as dela têm lugar no meio editorial. Peloamordedeus, eu não sou todo mundo. Eu era só uma fã que tem mania de imacular seus ídolos. Que pena.
28.11.07
História com c's
postado por
carla castellotti
às
16:34
